Beowulf



CAITLÍN R. KIERNAN

BEOWULF


Baseado no guião cinematográfico
de Neil Gaiman e Roger Avary

com Introdução de Neil Gaiman



FICHA TÉCNICA
Título original: Beowulf
Autora: Caitlín R. Kiernan, com base no guião de Neil Gaiman e Roger Avary
Introdução: Neil Gaiman
Tradução: Alice Rocha
Capa: Arranjo gráfico de Ana Espadinha
Composição, impressão e acabamento: Multitipo Artes Gráficas, Lda.
1.a edição, Lisboa, Novembro, 2007




À Grendel

Talibus laboribus lupos defendimus.

INTRODUÇÃO


Por vezes, penso nas histórias como se fossem animais. Há as raras, há as comuns, outras há em vias de extinção. Há histórias que são ancestrais, como os tubarões, e outras cuja presença neste planeta é tão recente como a das pessoas ou dos gatos.
A Cinderela, por exemplo, é uma história que, nas suas diversas variantes, se propagou pelo mundo com sucesso idêntico ao das ratazanas ou dos corvos. A encontramos em todas as culturas. Depois há histórias como a Ilíada, que mais me fazem lembrar as girafas: incomuns, mas de imediato reconhecíveis sempre que são mencionadas ou narradas. Há, não pode deixar de haver, histórias que se extinguiram, como o mastodonte ou o tigre-de-dentes-de-sabre, e que nem os ossos nos deixaram como testemunho: histórias que morreram com o desaparecimento dos povos que as narravam, ou histórias que, há muito esquecidas, deixaram de si apenas fragmentos fósseis noutras histórias. Até nós chegaram apenas meia dúzia de capítulos do Satiricon, nada mais.
Beowulf poderia, com toda a facilidade, ter sido uma delas.
Pois, em tempos que lá se vão, bem para mais de mil anos, as pessoas contavam esta história. Mas o tempo passou, e ela caiu no esquecimento. Foi como um animal em cuja extinção, ou quase-extinção, ninguém tivesse reparado. Esquecida pela tradição oral, foi preservada num único manuscrito. Os manuscritos são frágeis, extremamente susceptíveis ao tempo ou ao fogo. O manuscrito do Beowulf apresenta marcas de ter sido chamuscado.
Mas sobreviveu...
E, uma vez redescoberto, pouco a pouco, começou a procriar, como uma espécie em vias de extinção que, com todos os cuidados, é devolvida a este mundo.
O meu primeiro contato com a história (trezentos anos depois de o único manuscrito ter sido adquirido pelo British Museum) foi-me proporcionado por meio dum artigo publicado numa revista inglesa, afixado numa parede da sala de aula. Foi essa a primeira ocasião em que li a respeito dos seus protagonistas: Beowulf, Grendel e da mãe de Grendel, ainda mais aterrorizante.
O meu segundo contato deu-se provavelmente através do Beowulf em formato de história em quadrinhos, editado durante um breve período pela DC Comics. O protagonista usava uma tanga de metal e um elmo com chifres tão grandes que não conseguia passar pela porta, e enfrentava cobras enormes e monstros da mesma sorte. A única vantagem que me trouxe foi ter-me impelido a ir em busca do original, sob a forma duma edição da Penguin Classics, que tornei a ler anos depois, quando, em parceria com Roger Avary, decidimos tornar a narrar a história em versão cinematográfica.
A roda continua a girar. Beowulf abandonou há muito a lista das espécies em vias de extinção e começou a reproduzir-se nas suas diversas variantes. Já foram realizados inúmeros Beowulf para a grande tela, desde uma versão de ficção científica até outra em que Grendel encarna uma tribo sobrevivente de Neandertais. Todas elas são válidas: diferentes versões, diferentes recombinações do DNA da história. As que obtiveram êxito serão recordadas e retransmitidas, as outras, acabarão por cair no esquecimento.
Quando nos perguntaram, a mim e a Roger Avary, se achávamos que se devia escrever um romance a partir do livro, dissemos que não, e sugerimos que as pessoas deveriam, ao invés, ler o poema original. Ainda bem que os manda-chuvas nos ignoraram, e, melhor ainda, que desencantaram Caitlín R. Kiernan para narrar esta versão da história.
Pois foi isso que ela fez. Caitlín pegou no conto de Beowulf e no guião do filme e, a partir de ambos, criou uma narrativa empolgante, uma saga que cheira a sangue e hidromel, que deveria ser entoada à meia-noite em pântanos e cumes desertos.
Relata-nos uma história de heroísmo, fogueiras acesas e ouro, constelada por amor, segredos e momentos de violência extrema. É uma narração antiga, que merece ser contada enquanto as pessoas se interessarem por heróis, monstros e trevas. É uma história para cada um de nós.
Todos temos os nossos demônios.
Beowulf estava convencido de que o seu era Grendel...
Neil Gaiman





PRÓLOGO


Era uma vez um tempo anterior ao homem, quando o mundo ainda nem sequer existia, quando todo o cosmos se resumia ao vácuo escuro do buraco de Ginnunga. Na extremidade mais ao norte, ficavam os ermos gélidos de Niflheim, e no ponto mais meridional, as terras das fornalhas vivas e faiscantes, domínio do gigante Muspéll, e, assim, designadas Muspellsheim. Na imensa vastidão deserta de Ginnunga, os ventos frios do Norte encontravam-se com as brisas cálidas que sopravam do sul, e os vendavais rodopiantes de chuva e neve dissolviam-se em gotas de nada para formar Ymir, o pai de todos os Gigantes do Gelo. Os gigantes chamavam-lhe Aurgelmir, o vociferador de cascalho. Audhumla, a primeira vaca, também teve origem nestas gotas de geada. Com o seu leite, alimentou Ymir, e, com a sua língua, lambeu o primeiro de todos os deuses, Búri, a partir dum bloco de sal. Numa época mais tardia, o filho de Búri, Bur, teve três filhos da deusa Bestla: Odin, Vili e Vé, e foram eles que mataram o poderoso Ymir e depois levaram o seu cadáver para o âmago profundo do buraco de Ginnunga. A partir do seu sangue, criaram os lagos, os rios e os mares, e, dos seus ossos, entalharam as montanhas. A partir dos seus dentes maciços, fizeram todas as pedras e o cascalho, do cérebro, as nuvens, e do seu crânio construíram o céu e elevaram-no acima da terra. E foi assim que os filhos de Búri edificaram o mundo, que viria a ser o lar dos filhos dos homens. Por último, serviram-se das sobrancelhas de Ymir para erguer uma enorme muralha, a que chamaram Midgard, situada para lá dos mares, por toda a volta da circunferência do disco do mundo, de modo a que os homens ficassem para sempre protegidos da hostilidade dos gigantes que não se afogaram no terrível dilúvio do sangue de Ymir.
E seria ali, sob o santuário de Midgard, que todas as incontáveis vidas dos homens haveriam de decorrer. Ali haveriam de se erguer, lutar e cair. Ali haveriam de nascer e morrer. Ali, os maiores dentre eles haveriam de encontrar a glória, graças a feitos prodigiosos e, depois de morrerem como heróis, seriam escoltados pelas Valquírias através das portas do salão de Odin, Valhalla, onde se deleitam com comida e bebida, à espera de Ragnarok, a derradeira batalha entre os deuses e os gigantes, na qual haverão de combater ao lado de Odin, o Pai de Todos. O grande lobo, Fenrir, será finalmente libertado no mundo e, nos oceanos, o mesmo acontecerá à serpente Midgard. Yggdrasil, a árvore do mundo, haverá de tremer as suas raízes enfraquecidas pelas mandíbulas dilacerantes do dragão Nidhogg. Uma idade do machado, uma idade de espadas contra espadas e escudos quebrados, em que os irmãos haverão de lutar entre si e matar-se uns aos outros; uma idade do vento, uma idade do lobo, no crepúsculo dos deuses, quando todo o cosmos se desintegrar, finalmente, no caos.
Todavia, antes da chegada desse fim que nem sequer os deuses são capazes de prever, viriam ainda todas as gerações de homens e mulheres. Todas as incontáveis guerras e traições, amores, triunfos e sacrifícios. E os maiores poderiam, durante algum tempo, ser lembrados e transmitidos através das canções e dos poemas dos escaldos.
Ali, sob Midgard, haveria uma idade de heróis.



















Primeira Parte


GRENDEL



CAPÍTULO I

UM PREDADOR NA ESCURIDÃO


A terra dos dinamarqueses termina aqui, nestes enormes penhascos escarpados e altaneiros de granito que se projetam mar gélido adentro. A espuma das ondas geladas açoita as praias estreitas e selvagens de cascalho com fragmentos de rocha e pedregulhos caídos, seixos polidos, e areia misturada com farrapos de gelo e neve cortante. Não são um lugar adequado ao homem, estas costas áridas e fustigadas pelo vento, nesta época do ano visitada pela fome e evitada pelo sol. Durante o dia, ainda se vêem umas quantas criaturas selvagens apenas focas, morsas e a carcaça apodrecida duma baleia que deu à costa, apenas gaivotas e águias que pairam bem alto contra o céu matizado de variadas tonalidades de chumbo. Durante as longas noites, a costa transforma-se num reino ainda mais deserto e proibitivo, iluminado apenas pelos raios furtivos do único olho pálido da Lua, à medida que esta aparece e desaparece por entre as nuvens e o nevoeiro.
Contudo, mesmo aqui, existe um refúgio. Empoleirada como um farol que ilumina todos os que vagueiam perdidos no frio, acha-se a torre do rei scylding, Hrothgar, filho de Healfdene, neto de Beow, bisneto de Shield Sheafson. A torre constela a escuridão de pontos dum amarelo vivo, e esta noite, mesmo numa noite tão desoladora como esta, ao abrigo da torre, decorre uma celebração, um banquete.
No interior das paredes robustas do novo salão do hidromel do rei, a que este deu o nome de Heorot, o salão dos veados, reuniram-se os seus nobres e respectivas damas. As fogueiras ardem bem vivas sob o telhado de madeira e colmo, afugentando o frio e impregnando o ar de deliciosos aromas culinários e do perfume reconfortante do fumo da madeira. Aqui, acima do alcance da fúria do mar, o rei honrou finalmente a sua promessa, concedendo este enorme salão aos seus leais súditos. Em todas as terras dos Nórdicos, não há outro que se compare em dimensões e imponência, e esta noite acha-se inundado de gargalhadas ébrias e do barulho estrepitoso de pratos e facas, a cadência irregular de centenas de vozes a falar ao mesmo tempo, que não difere tanto assim da cadência das ondas lá fora, exceto que aqui não há uma só réstia de gelo, e o único lugar em que uma pessoa se poderia afogar seria nas infindas taças de hidromel. Por cima das fogueiras acesas em amplas fossas abertas no chão, porcos e veados, coelhos e gansos assam em espetos de ferro, e as chamas saltam e dançam, projetando sombras estonteantes ao longo das paredes, dos rostos folgazões e das traves maciças de madeira decoradas com cenas esculpidas de guerra e de caça, com as imagens idólatras de deuses e monstros.
Então eu não vos disse que honraria a minha promessa? vocifera o gordo rei Hrothgar desde a alcova instalada ao fundo do comprido salão. É um homem idoso, que já deixou para trás os seus dias de batalha, a longa barba e as tranças do cabelo tão alvas como a neve de Inverno. Apenas com um lençol a envolvê-lo, ergue-se lentamente do estrado em cima do qual se encontra o seu trono, movimentando-se tão depressa quanto a idade e a cintura avantajada lhe permitem. Um ano atrás... eu, Hrothgar, vosso rei, jurei que, não tardaria, haveríamos de celebrar as nossas vitórias num salão novo, um salão tão imponente quanto belo. Agora, digam-me lá, honrei ou não honrei a minha promessa?
Momentaneamente distraídos da bebida, da festança e da alegre devassidão, os homens do rei levantam as taças e as vozes, também, aclamando o velho Hrothgar, indiferentes ao fato de apenas meia dúzia deles se encontraram sóbrios o suficiente para perceberem o motivo da aclamação. Ao ouvir aquelas vozes, Hrothgar arreganha os dentes num sorriso embriagado e esfrega a barriga, baixando em seguida os olhos para a sua rainha, a bela Lady Wealthow. Embora pouco mais seja que uma criança, esta rapariga de olhos da cor das violetas e adornada de ouro, peles e jóias cintilantes não se deixa sobrecarregar nem cegar por qualquer tipo de ilusões pueris a respeito da fidelidade do marido. Ela sabe, por exemplo, das duas donzelas que se estão neste momento a rir à socapa e com quem ele se deitou ainda esta noite, raparigas das quintas ou talvez filhas dos seus próprios nobres, e com quem o rei ainda estava entretido quando quatro cavaleiros chegaram para o transportar dos seus aposentos para o salão apinhado de gente. Hrothgar nunca se preocupou minimamente em esconder-lhe as suas meretrizes e amantes, e, por conseguinte, Wealthow nunca encontrou motivo para fingir que não as via.
Ah, hidromel! resmunga ele arrancando das mãos da rainha o chifre adornado que serve de taça. Obrigado, minha encantadora Wealthow! Esta lança-lhe um olhar de indignação, mas Hrothgar já desviou a sua atenção dela, e leva o chifre aos lábios, entornando hidromel pelo queixo abaixo até ao emaranhado da barba.
A taça em forma de chifre é um objeto de cortar a respiração, e já em diversas ocasiões ela se referiu explicitamente ao fascínio que lhe causa. Foi seguramente elaborado em tempos mais recuados, numa época em que objetos daquele requinte artístico não eram raros naquela terra, ou então foi produzido nalgum reino distante por um povo que ainda não se esquecera de tal arte. E um mistério e um encanto para a vista, esta relíquia resgatada ao tesouro dum dragão; mesmo preso nas mãos papudas dum homem tão rude quanto o marido, o chifre continua a ser um deleite para os seus olhos. O ouro mais requintado gravado com estranhas runas como ela nunca antes viu, e dois pés em garra numa das extremidades, de modo a que o chifre possa ser pousado sem se virar e entornar o conteúdo. A fazer de pega, está um dragão alado, também ele de ouro trabalhado, com um único e perfeito rubi engastado na garganta. Chifres, presas e o percurso denteado da sua espinha dorsal sinuosa e cortante, uma criatura terrível recuperada dalguma narrativa esquecida, ou então talvez o artífice pretendesse que este dragão evocasse a serpente Nidhogg, A Que Mordisca Raízes, que se acha enroscada na escuridão das profundezas do Freixo do Mundo.
Hrothgar arrota, limpa a boca e em seguida ergue o chifre vazio como se quisesse brindar a todos reunidos na sua presença.
E será neste salão brada ele que havemos de dividir o saque das nossas conquistas, todo o ouro e todos os tesouros. Este será sempre um lugar de folguedo, alegria e fornicação... daqui até ao fim dos tempos. Eu nomeio este salão Heorot!
E, mais uma vez, todos os nobres, respectivas damas, bem como todos os restantes aclamam, e Hrothgar vira-se novamente para Wealthow. Tem gotas de hidromel agarradas ao bigode e à barba como um estranho orvalho ambarino.
Vamos distribuir uma parte do tesouro, minha linda?
Wealthow encolhe os ombros e não sai do seu lugar, enquanto o rei mergulha uma mão dentro duma arca de madeira que foi disposta no estrado entre os tronos de ambos. Está quase a transbordar de ouro e prata, com moedas cunhadas numa dúzia de terras estrangeiras e fíbulas incrustadas de pedras preciosas. O rei atira um punhado de moedas para a multidão expectante. Algumas são agarradas ainda no ar, ao passo que outras chovem ruidosamente em cima dos tampos das mesas e do pavimento imundo, originando uma escaramuça gananciosa e desordenada.
Agora o rei escolhe um único colar de ouro retorcido de dentro da arca de madeira e segura-o acima da cabeça, recebendo nova aclamação dos convidados. Desta feita, porém, Hrothgar abana a cabeça e segura o colar ainda mais alto.
Não, não, este aqui não é para nenhum de vós. Este é para o Unferth, o mais asisado dos meus homens, violador de virgens sem rival e o mais destemido de todos os valentes brigões... Onde raio estás tu, Unferth, seu bastardo com cara de doninha!? Unferth...
Ao fundo do comprido salão, à beira duma enorme fossa cavada diretamente no chão, de modo a que os homens não sejam obrigados a enfrentar o vento frio e arriscarem-se a uma gangrena só para urinarem, Unferth está ocupado a aliviar-se enquanto trava uma discussão com outro dos conselheiros do rei, Aesher. Ainda não ouviu o rei a chamar pelo seu nome, a voz do velho abafada pela infindável algazarra que reina no salão, e baixa os olhos para a fossa escura, uma enorme boca sequiosa que se abre completamente para receber a sua quota-parte de hidromel, logo que os nobres o tenham despachado. Transparece uma certa dureza deste homem, um laivo de amargura e ferocidade das suas feições macilentas e das tranças tão pretas como as penas dum corvo, um certo calculismo do brilho baço dos seus olhos verdes.
Não é caso para te estares para aí a rir admoesta ele Aesher. Estou a dizer-te, temos de começar a levar este assunto a sério. Ouvi dizer que, agora, os crentes se estendem desde Roma até ao Norte, à terra dos Francos.
Aesher franze o cenho e fita a corrente amarela da sua própria urina.
Bom, então responde-me lá a esta pergunta: quem é que achas que venceria uma briga de punhais, Odin ou esse Jesus Cristo?
Unferth! ruge novamente Hrothgar, e desta feita Unferth ouve-o.
Oh, o que é que se passa agora? suspira ele. Será possível que já nem para mijar tenho paz e sossego?
Aesher sacode a cabeça por entre uma gargalhada à socapa.
É melhor despachares-te aconselha-o, a rir-se. Se eu fosse a ti, não o fazia esperar. Que importância tem a bexiga cheia dum homem quando comparada com a vontade do seu rei?
Unferth, filho bastardo daquele bastardo do Ecglaf! Onde é que paras, seu ingrato?
Unferth apressa-se a enfiar a fralda dentro das calças, em seguida, com alguma relutância, dá meia-volta para abrir caminho por entre a multidão ébria. Alguns afastam-se para o deixar passar, enquanto outros parecem nem dar por ele. Unferth, porém, não tarda a postar-se diante do estrado do rei, forçando um sorriso e levantando uma mão para que Hrothgar repare na sua presença.
Aqui estou, meu rei! anuncia ele, e Hrothgar, depara-se com ele, arreganha ainda mais os dentes e debruça-se para a frente, colocando o colar de ouro retorcido em volta do pescoço magro de Unferth.
Sois demasiado bondoso, meu senhor. A vossa generosidade...
Não, não, não. Não é nada que não mereças, nada que não mereças, meu bom e fiel Unferth. E o olhar de Hrothgar torna a varrer os seus súditos. E, uma vez mais, um entusiástico aplauso se eleva da multidão. O arauto do rei, Wulfgar, avança de entre as sombras do trono para conduzir os nobres embriagados e as respectivas damas numa cantoria familiar e, não tarda, a maior parte do salão acompanha-o. Os guerreiros batem com os punhos e as taças nos tampos das mesas, ou então saltam para cima destas e começam a patear, enquanto, por todo o Heorot, ecoa a canção:

Hrothgar! Hrothgar!
«Hrothgar! Hrothgar!
«Ele enfrentou o dragão demoníaco
«Quando outros hesitaram.
«E depois, meus senhores,
«Empunhou a espada
«E fê-lo ajoelhar-se!

Agora já todos os músicos de Hrothgar se juntaram ao coro de vozes, acompanhando a canção com as suas harpas, flautas e tambores. Até mesmo Unferth canta, mas o presente do rei jaz frio e pesado em volta do seu pescoço, e pressente-se muito menos entusiasmo e sinceridade na voz.

Hrothgar! Hrothgar!
«O maior dos nossos reis.
«Hrothgar! Hrothgar!
«Ele despedaçou as asas do dragão!

* * *

Todavia, a correnteza de ruidosa folia que jorra de Heorot as gargalhadas e as canções entusiásticas, o tilintar das moedas de ouro e prata não é bem acolhida por todas as criaturas que habitam nesta terra à beira-mar. Há seres noturnos, que não são homens nem animais, seres ancestrais descendentes duma espécie de gigantes, dos trolls[1] ou pior ainda, que se mantêm em alerta constante, açoitados nos pauis úmidos e pântanos proibitivos. Para lá das muralhas imponentes e das fortificações de Hrothgar, para lá dos portões, das pontes e das ravinas, onde a terra arável e os pastos cedem subitamente lugar ao ermo, situa-se uma floresta mais antiga que a memória dos homens, um bosque que já existia muito antes da chegada dos dinamarqueses. E nos vales situados na extremidade mais afastada destas árvores nodosas, há pântanos congelados e lagos sem fundo que conduzem ao mar, e há outeiros rochosos crivados de grutas, túneis que penetram fundo na rocha, à semelhança das larvas que se enterram na carne dos mortos.
E numa destas grutas, acha-se uma criatura descomunal e, aos olhos humanos, hedionda, agachada na imundície e no cascalho, à luz duma brilhante poça de luar que se derrama pela entrada da gruta. Geme lastimosamente, agarrada ao crânio enfermo e malformado, tapando as orelhas defeituosas numa tentativa de abafar os sons tortuosos da folia que lhe chegam de Heorot como uma neve atroadora e persistente. Pois, embora o salão do hidromel e a torre alcandorada no rochedo sobre o mar sejam apenas um fulgor distante, há uma magia peculiar nas paredes e nos recantos desta gruta, uma qualidade singular que amplifica aqueles ruídos longínquos e os transforma num tumulto ensurdecedor. E é por isso que as orelhas da criatura troll ressoam e lhe doem, impiedosamente castigadas pela canção dos homens de Hrothgar, tal como a costa é fustigada pelas ondas até se desfazer em areia.

«Ele ofereceu-nos proteção
Quando os monstros erravam pela terra!
E um a um
Ele os desafiou...
E eles morreram-lhe às mãos!»

À medida que a moinha dentro da sua cabeça se torna quase insuportável, a criatura continua a gemer um choro agudo que constitui um misto de sofrimento e raiva, medo e dor. Desesperada, agarra-se ao focinho, depois investe debalde contra a escuridão e o luar, como se as suas garras pudessem apanhar o ruído no ar e esmagá-lo, transformando-o em algo silencioso, domado e morto. Tem a certeza de que os seus ouvidos estão prestes a rebentar e esta agonia não tardará a conhecer um fim. Mas as suas orelhas não rebentam, e a dor não acaba, e a canção dos guerreiros duplica de intensidade, ficando ainda mais alta que antes.

«Hrothgar! Hrothgar!
Com este banquete, nós honramos
Hrothgar! Hrothgar!
Ele matou o mostro feroz!’»

Já chega, mãe suplica a criatura, revirando os olhos e rilhando os dentes ao estrondo da canção. Mãe, eu não agüento isto. Mais um pouco, e não agüento mais!

«Esta noite cantamos em seu louvor,
Os mais valentes guerreiros.
Por isso empunhem as vossas lanças!
Não teremos receios,
Desde que Hrothgar reine!»

A criatura cerra os seus grandes punhos e, pela entrada da gruta, fita o frígido céu noturno, dirigindo uma súplica silenciosa a Máni, a Lua branca, filho do gigante Mundilfaeri, para que acabe com aquela algazarra duma vez por todas.
Eu sozinho não posso explica o monstro ao céu. Estou proibido. A minha mãe... ela avisou-me que eles eram muito perigosos. E em seguida imagina uma saraivada de pedras e labaredas prateadas arremessadas pelo gigante da Lua, projetando-se dos céus para aniquilar duma vez para sempre a vozearia abominável e injuriosa dos homens. Mas a cantoria prossegue, e a Lua insensível parece apenas escarnecer do seu tormento.
Já chega insiste a criatura, ciente agora do que tem de ser feito, do que ela precisa de fazer por si própria, uma vez que ninguém se dispõe a pôr um fim àquela barulheira: nem os gigantes, nem a mãe. Se quiser voltar a ter paz e sossego, tem de os obter pelos seus próprios meios. E, reunindo toda a sua fúria e sofrimento como se fosse um escudo, reforçando-o bem em seu redor, o monstro apressa-se a abandonar a segurança das trevas, saindo sorrateiramente da gruta para o luar bruxuleante, alheio às suas súplicas.

* * *

Do lugar onde se encontrava, atrás do trono do rei, Unferth observa o salão do hidromel a mergulhar num pandemônio ébrio cada vez mais profundo. A sua taça acha-se vazia, já há algum tempo, e o seu olhar varre a sala em vão, à procura do escravo que tarda a vir enchê-la. Não há sinal do rapaz em lado algum, apenas os rostos dos nobres que cantam e riem alheios a tudo o mais era seu redor. A sua atenção parece concentrar-se exclusivamente na bebida, nas mulheres, no banquete e na canção em louvor do velho Hrothgar.

Hrothgar, Hrothgar!
«Que derrotou todos os demônios!
« Hrothgar, Hrothgar!
«E os devolveu a Hel[2]!

Wulfgar está sentado ali próximo, na beira do estrado, com uma donzela ruiva alapada no colo. Ele leva-lhe a taça aos lábios e verte-lhe gotas de hidromel por entre o rego dos seios, e ela ri-se e guincha enquanto ele lhe lambe a bebida do peito. Unferth franze o sobrolho e torna a perscrutar a multidão em busca do escravo, um rapazote coxo e preguiçoso chamado Cain. Por fim, lá vislumbra o rapaz a mancar por entre os convivas, enquanto segura uma grande taça entre as mãos.
Rapaz! grita-lhe Unferth. Que é feito do meu hidromel?
Aqui o tendes, meu senhor responde-lhe o escravo, escorregando de imediato numa poça de vômito arrefecido nos degraus do estrado e salpicando hidromel da taça para o chão.
Estás a entorná-lo! resmunga Unferth, agarrando na bengala de Aesher, um pau de madeira de vidoeiro nodoso, e acertando uma pancada com força na testa de Cain. O rapaz perde o equilíbrio, por pouco não se estatela no chão e torna a entornar o hidromel nos degraus do estrado.
Seu idiota desastrado escarnece Unferth, batendo novamente em Cain. Como te atreves a desperdiçar o hidromel do rei?
O rapaz abre a boca a ensaiar uma resposta, um pedido de desculpas, mas Unferth continua a agredi-lo violentamente com a bengala. Uns quantos nobres voltam-se para observar a cena e riem-se à socapa dos apuros em que o escravo se vê metido. Por fim, Cain desiste e deixa cair a taça, que, em qualquer dos casos, já está vazia e foge o mais depressa que a sua perna deformada lhe permite, refugiando-se debaixo duma das mesas compridas.
Verme inútil grita-lhe Unferth. Eu devia era dar-te a comer aos porcos, e o caso ficava já arrumado!
Hrothgar tem estado a assistir do seu trono, e inclina-se para um dos lados para soltar um sonoro peido, recebendo uns vagos aplausos dos nobres.
O meu medo é que tu envenenasses os porcos diz ele a Unferth, peidando-se uma vez mais. Mas quando é que esta maldita cantilena acaba? E, como em resposta à sua pergunta, a multidão lança-se a nova estrofe.

Ele ergueu-se como um salvador,
«Quando a esperança já nos faltava.
«0 monstro foi es cornado
«E a paz restaurada!
«A sua lenda há de perdurar!

Hrothgar emite um resmungo de profunda satisfação e sorri, varrendo com o olhar a confusão gloriosa e desregrada de Heorot Hall.
Pergunto eu: somos ou não somos os homens mais poderosos de todo o mundo? murmura, virando-se para Aesher. Não somos nós os mais ricos? Não nos divertimos nós com as mais bonitas mulheres que há? Não podemos nós fazer tudo o que muito bem nos der na real gana?
É bem verdade assentiu Aesher.
Unferth? chama o rei Hrothgar, mas aquele continua a espreitar com ar de ameaça o lugar por onde o escravo escapuliu por baixo da mesa, e não lhe responde.
Mas tu estás surdo, Unferth?
Unferth solta um suspiro e devolve a bengala de vidoeiro a Aesher.
É verdade responde ele com parco entusiasmo. Sim, é verdade.
Ai lá disso não tenhas dúvidas resmunga Hrothgar, tão plenamente satisfeito com este momento como algum dia esperou poder vir a estar, tão contente consigo próprio e com os seus feitos como não imagina que algum homem se tenha jamais sentido. Prepara-se para pedir a Wealthow (que se acha sentada ali próximo na companhia das aias) que lhe torne a encher o chifre de ouro, mas as pálpebras vacilam-lhe e fecham-se, e não tarda a que o Rei dos Dinamarqueses caia num sono profundo e ressone a bom ressonar.

* * *

Durante a noite invernosa, o monstro encaminha-se a passos largos para Heorot Hall, e todos os seres fogem à sua passagem, todos os pássaros e feras, todos os peixes e serpentes, todos os outros fantasmas e criaturas inferiores que assombram as trevas. Ele trepa do lamaçal e do emaranhado dos pântanos gelados, içando com toda a facilidade o seu corpanzil deformado do inferno de lodo para as sombras profundas da floresta ancestral. E apesar de na sua cabeça ainda ressoar e ecoar a canção dos nobres, sente-se aliviado por ficar momentaneamente livre da observação constante da Lua, coberto agora por galhos e ramos grossos e envelhecidos que o protegem quase tão bem como o teto da sua caverna.
Eu já lhes mostro o que significa silêncio! vocifera ele e, com um punho gigantesco, despedaça o tronco duma árvore, reduzindo-a num instante a um mero amontoado de lascas de madeira e seiva. «E muito mais fácil será esmagar os ossos dos homens, derramar o seu sangue», imagina. E, assim, outra árvore cai, e depois mais outra, e outra ainda, a violência de cada pancada a alimentar-lhe a fúria e a aproximá-lo do verdadeiro alvo do seu rancor. As passadas compridas da criatura depressa a levam à orla da floresta e a devolvem à luz da Lua. Agora, ela precipita-se através das charnecas, pisando fetos e arbustos por onde quer que passe, espezinhando tudo o que não se consiga mexer com rapidez suficiente para lhe sair a tempo do caminho, afugentando os galos-silvestres e os coelhos dos respectivos abrigos noturnos. Em breve alcança o abismo rochoso que separa as ameias de Hrothgar das terras interiores. Aqui, detém-se, mas apenas por uns instantes que mal chegam para recuperar o fôlego, antes de avistar uma sentinela solitária de vigia à muralha. O homem também o vê, e a criatura de imediato reconhece e se apraz com o horror e a incredulidade que transparecem dos olhos da sentinela.
«Ele não quer crer que eu existo», pensa o monstro, «mas também não pode pôr isso em dúvida.» E então, antes de o homem ter tempo de gritar e lançar o alerta, a criatura da caverna salta por cima da ravina.

* * *

Ouviste aquilo? pergunta Unferth a Aesher.
Aquilo o quê?
Parecia quase um trovão explica-lhe Unferth, baixando os olhos para o Sabujo gordo que se encontra aninhado no estrado aos pés de Hrothgar. O animal empertigou as orelhas e está de olhar fixo no fundo do salão, na grande porta de madeira. Os seus lábios recuam deixando os dentes à mostra, e uma rosnadela sumida assoma-lhe da garganta.
Verdade seja dita que a cantoria destes palermas não me deixa ouvir nada resmunga Aesher. Ah, e aqui o ressonar do nosso valente rei.
Unferth leva a mão ao punho da espada.
Estás a falar a sério? indaga Aesher, levando por sua vez a mão à sua arma.
Escuta sibila Unferth.
Mas escutar o quê?
O cão levanta-se devagar, os pêlos da nuca eriçados, e começa a recuar, aumentando a distância que o separa da entrada do salão. Entre o trono e a porta de Heorot, os nobres e as suas damas dão seguimento à sua folia ébria...

Hrothgar, Hrothgar!
«Que todas as taças se ergam!
«Hrothgar, Hrothgar!
«AGORA E PARA SEMPRE LOUVADO!

Mas o que é que lhe deu? pergunta a rainha Wealthow, apontando para o cão que rosna enquanto recua, com a cauda entre as pernas. Unferth limita-se a presenteá-la com um breve olhar antes de se tornar a virar para a porta. Apercebe-se de que não está trancada.
Aesher diz ele. Vai ver a porta...
Mas é então que algo se arremessa contra o exterior da porta do salão do hidromel, atingindo-a com força suficiente para a sua estrutura ranger e lascar com um estrondo ensurdecedor. As dobradiças de ferro descomunais vergam-se e curvam-se para dentro, e a porta é recortada por inúmeras fendas de alto a baixo; por agora, contudo, agüenta.
No seu trono, o rei Hrothgar agita-se, e é um ápice até que se endireita, completamente desperto e atônito. Os nobres interromperam a cantilena, e todos os olhos se viram para a porta. As mulheres, as crianças e alguns escravos preparam-se para fugir, recuam em direção ao trono e à extremidade oposta do salão, e a maioria dos guerreiros leva as mãos às espadas e aos punhais, às lanças e aos machados. Unferth desembainha a arma, e Aesher segue-lhe o exemplo. E em seguida um silêncio terrível e ofegante abate-se sobre Heorot Hall, como o formidável espaço oco deixado por um raio depois de atingir uma árvore.
Unferth sussurra Hrothgar. Estamos a ser atacados?
E então, antes que o conselheiro vá a tempo de lhe responder, a porta sofre novo assalto. Ainda agüenta por breves instantes, ao que cede subitamente, saltando das dobradiças, desfeita em mil e uma lascas aguçadas que, como uma chuva de setas mortíferas, se projetam por cima do pavimento e dos tampos das mesas e se vão cravar nos rostos e nos corpos de todos quantos se achavam mais próximos da entrada. Alguns homens morrem, ou ficam moribundos, esmagados debaixo dos fragmentos maiores da porta despedaçada, e, entretanto, um abalo percorre o salão a todo o comprimento, uma onda de som que parece ter a solidez duma avalanche, e a corrente de ar que se forma à sua passagem apaga as fogueiras onde se assa a carne e todas as velas acesas em Heorot, mergulhando o salão na mais completa penumbra.
Wealthow põe-se de pé, ordenando às criadas que procurem abrigo, em seguida dirige o seu olhar para a porta e para a criatura monstruosa à entrada, a sua silhueta recortada contra o luar. O seu peito arqueja, e o ar sai-lhe como vapor dos lábios negros e das narinas adejantes. Trata-se seguramente dum terror antigo, pensa ela, um demônio ancestral vindo de épocas remotas, antes de os deuses terem subjugado Lori Caminhante dos Céus e os seus pérfidos filhos.
Senhor meu rei diz ela, mas nesse momento a criatura inclina a cabeça para trás, abre boca toda e grita. E jamais a rainha Wealthow e os nobres de Hrothgar ouviram um grito tão terrível e maléfico; um grito que encerra em si a ruína do mundo, a queda de reinos, o estrépito da morte, o sofrimento e a própria terra que se rasga no último de todos os dias.
E as próprias paredes de Heorot estremecem perante a força e a fúria daquele grito, e as fogueiras apagadas reacendem-se subitamente, voltando violentamente à vida. Elevam-se até às vigas do teto e tornam-se pilares rodopiantes de labaredas incandescentes, projetando uma chuva de brasas cintilantes em todas as direções. Nem a porta nem o monstro são visíveis a partir do estrado do trono, onde a visão é ofuscada pelas chamas. No salão, onde, momentos atrás, ressoavam as canções, as gargalhadas e os ruídos da animada celebração, irrompem os gritos de gente aterrorizada e estropiada, e os berros furiosos e imprecações dos guerreiros embriagados que se precipitam atabalhoadamente para as armas. Por detrás da barreira de fogo, a criatura avança, vagueando agora livremente sob o teto de Heorot.
Os quatro nobres mais próximos da porta investem contra o monstro, e este agarra de imediato num deles e serve-se do homem como cacete humano para agredir os outros três, arremessando dois deles contra cadeiras e mesas. O terceiro é atirado ao ar, impotente como um boneco, e voa pelo salão a todo o comprimento, atravessando a torre espiralada de chamas e passando por cima das cabeças daqueles que ainda estão sentados ou enroscados no estrado até que o seu corpo inerte se esmaga contra a parede por detrás dos tronos de Hrothgar e Wealthow.
A minha espada! grita o rei, vacilando para se pôr de pé. Tragam-me a minha espada!
Ainda agarrando o quarto guerreiro por um tornozelo partido, o monstro detém-se o tempo suficiente para baixar o olhar para o rosto semi-inconsciente e coberto de sangue, apenas o tempo suficiente para que o homem possa, por sua vez, erguer o olhar para a cara dele e se aperceber plenamente do destino que o espera e das graves conseqüências da sua bravura. Depois, quando deixa de ter serventia a dar ao homem, a criatura arremessa-o para o inferno de chamas. E as labaredas atiçam-se ainda mais que antes, como se mostrassem gratidão por poderem devorar o guerreiro em pranto. O monstro emite novo grito, agredindo o ar e os ouvidos de todos os que se acham encurralados em Heorot Hall com a sua voz, cujo ribombar prenuncia o Dia do Juízo Final.
Aesher pega na mão da rainha Wealthow e apressa-se a conduzi-la para longe do estrado. Quando chegam a uma mesa virada, empurra-a para a obrigar a agachar-se por trás desta.
Não vos levanteis, senhora aconselha-a ele. Ficai aqui escondida e não vos mexeis. Nem para olhar, sequer.
A verdade, porém, é que ela olha, pois nunca foi pessoa de se retrair ou esquivar perante cenários de horror. Mal Aesher lhe larga a mão, Wealthow espreita por cima da beira da mesa, semicerrando os olhos feridos do clarão das chamas. Todavia, não consegue ver o monstro nem os nobres que combatem contra ele, apenas as suas sombras distorcidas que se estendem pelas paredes alumiadas pelas labaredas. As suas silhuetas movimentam-se para trás e para a frente como uma paródia macabra ao teatro de sombras que a mãe em tempos representava a fim de a ajudar a adormecer. Horrorizada, vê os homens a serem arremessados e desfeitos como se fossem brinquedos, os corpos rasgados, espetados, empalados nas suas próprias armas.
Mas que diabo... sussurra ela. Que infortúnio trouxe esta coisa até nossa casa?
Baixai-vos insiste Aesher, contudo, nesse preciso momento, outro corpo é arremessado através das chamas atroantes, inflamando-se e rasando por cima da cabeça da rainha. Esta esquiva-se rapidamente, e o homem morto e incandescente vai aterrar no meio dum grupo de mulheres acocoradas contra a parede. O fogo propaga-se avidamente do cadáver para as roupas e os cabelos das mulheres aos gritos, e antes de Aesher ir a tempo de a impedir, Wealthow agarra num jarro de hidromel e acorre para junto delas, encharcando as chamas. Aesher solta uma praga e chama-a, porém, quando ela se prepara para regressar ao abrigo da mesa, uma acha-de-armas retalha o ar que os separa a ambos, tão perto que a rainha sente o vento produzido pela lâmina. O jarro vazio escorrega-lhe dos dedos e estilhaça-se no chão. Em seguida, Aesher segura-a pelos pulsos e obriga-a a baixar-se, empurrando-a para a proteção da mesa virada.
Viste aquilo? interroga-o ela. A acha...
Sim, senhora minha, a acha-de-armas. Vi que foi por um triz que não vos arrancou a cabeça.
Não, não foi isso. Viste-a a atingir o monstro? Ela... ela fez ricochete. Como pode tal coisa ser?
Agora, porém, a atenção da criatura volta-se para a mesa atrás da qual a rainha e Aesher se refugiam, bem como para o trono, depois de a acha arremessada a ter distraído dos ataques aos nobres. Numa única passada de gigante, ultrapassa o halo do inferno de chamas, e Wealthow consegue por fim vê-la nitidamente, a criatura em si e não apenas uma sombra ou silhueta. O monstro detém-se para inspecionar a zona de pele ilesa onde a lâmina de aço o atingiu, em seguida estreita os seus olhos azul-acinzentados tolhidos de fúria e põe à mostra uns dentes quase tão compridos como as presas duma morsa adulta. Movimenta-se com uma rapidez que Wealthow nunca julgaria possível numa criatura tão descomunal, precipitando-se em frente, segurando Aesher entre as suas garras e erguendo-o bem acima da cabeça.
Fugi, senhora minha, fugi grita-lhe este, mas ela não é capaz de se mexer, quanto mais de correr. Limita-se a ficar a ver a criatura a enterrar profundamente as suas garras no corpo de Aesher e a rasgá-lo em dois como uma criança poderia partir um molho de galhos. O sangue do conselheiro do rei cai em redor dela como chuva, ensopando a cabeça e os ombros do monstro e salpicando o rosto virado para o alto da rainha Wealthow, silvando e crepitando à medida que salpica para o inferno de chamas.
A minha espada! brada Hrothgar e, ao ouvir isto, o monstro atira as pernas e a parte inferior do tronco de Aesher contra o rei. O grotesco míssil falha o alvo e, ao invés, acerta em Unferth, que tomba esparramado no chão. Desapontada, a criatura deixa cair o que resta do corpo de Aesher em cima da mesa virada, e os olhos sem vida do nobre fixam-se em Wealthow.
«Agora é que eu vou começar aos gritos», pensa ela. «Vou começar aos gritos, e nunca mais vou ser capaz de parar.» Todavia, tapa a boca com ambas as mãos, abafando a voz estridente do seu próprio medo, com a certeza absoluta de que será a próxima vítima do monstro, mesmo que não grite nem chame a sua atenção.
E é então que vê o marido, que cambaleia para fora do trono, tendo como única armadura o lençol que o envolve, agarrando firmemente dentro do punho cerrado a espada de folha larga, que emite um reflexo baço à luz das labaredas. Vê também Unferth, que não se levanta para ir em auxílio do seu rei, afastando-se a gatinhar custosamente a fim de procurar refúgio nas sombras por detrás do estrado.
Não! grita Wealthow ao marido, e o monstro dirige a sua atenção para ela, retirando subitamente a barreira protetora da mesa com uma mão enorme e calosa. As mesmas garras que despedaçaram o corpo de Aesher cravam-se na solidez da madeira de carvalho como se esta não fosse mais consistente que a carne ou o sangue. Ergue a mesa por cima da rainha, empunhando-a como se duma moca se tratasse.
Vira-te a mim! ruge o rei Hrothgar, tremendo violentamente e brandindo a espada contra as costas do invasor. Deixa-a em paz, diabos te carreguem! Vira-te a mim!
E, a todo o seu redor, o salão parece mergulhar no silêncio e na imobilidade, a coragem tendo abandonado os nobres sobreviventes, o terror agora mais abundante que os heróis. A fera torna a mostrar os dentes e baixa o olhar exultante de triunfo para a rainha Wealthow, mas nem assim esta se consegue mexer. Limita-se a ficar postada, a olhar para o marido à espera da pancada que a irá esmagar e libertar deste mundo onde demônios como este têm permissão para errar pela noite.
Eu mandei que te virasses a mim, seu filho-da-mãe! berra-lhe Hrothgar, agredindo a criatura, mas a sua espada desvia-se inocuamente sem sequer lhe ferir a pele. Com certeza não vieste de tão longe para matar mulheres. Vira-te a mim!
E agora Wealthow repara nas lágrimas que sulcam as faces de Hrothgar, e, lentamente, o monstro afasta-se dela e vira a sua atenção para o rei. Subitamente, encarando Hrothgar, a criatura começa a gemer e a lastimar-se, guinchando de dores como se todo o seu corpo estivesse a ser sacudido por estranhas convulsões. Os seus músculos são acometidos por espasmos, e as articulações emitem sonoros estalidos à semelhança dos ramos das grandes árvores fustigados pelo feroz vendaval Mörsugur.
Isso insiste Hrothgar. E isso mesmo. Vira-te a mim.
A criatura dá dois passos hesitantes atrás, retrocedendo perante o rei de Heorot Hall, ébrio e enrodilhado nos seus lençóis. Acha-se agora mesmo sobranceira a Wealthow, as suas pernas formando uma passagem em arco mesmo por cima da cabeça dela. Choraminga, a baba da cor do pus a escorrer-lhe dos lábios e a formar uma poça aos pés dela. E o monstro torna a rugir, desta feita, porém, transparece mais mágoa e desânimo que qualquer outra coisa daquele som aterrador.
A mim continua Hrothgar, brandindo a espada e percorrendo metade da distância que o separa do monstro, que o separa de Lady Wealthow.
NNNNÃÃÃÃãããããããããão! grita a criatura, o seu hálito fétido arrojando aquela só palavra com força suficiente para fazer Hrothgar tombar para trás e cair, perdendo o lençol e aterrando nu em cima do traseiro, a espada a retinir estrondosamente no chão. E em seguida, com a mão direita, o monstro agarra em dois dos guerreiros caídos e projeta-os pelo ar, desaparecendo pela chaminé por cima da fogueira. Levanta atrás de si uma terrível rajada de vento e, por um breve instante, as chamas atiçam-se ainda mais, um clarão empolado e ofuscante de calor e luz, e o salão fica às escuras e a noite ventosa acorre a preencher o vazio.
A escuridão traz consigo um silêncio de choque, interrompido apenas pelos soluços e os estertores agonizantes dos moribundos. Alguém acende um archote, depois outro. Não tarda, a noite é fendida por poças tremeluzentes de luz amarela, e Wealthow vê com os seus próprios olhos a destruição reinante no salão do hidromel. Unferth emerge da penumbra, agarrando a espada como alguém que não é covarde. O brilho dos archotes reflete-se palidamente no colar de ouro retorcido que traz ao pescoço. Wealthow aproxima-se do marido, trêmulo e choroso, e ajoelha-se a seu lado, pegando no lençol e tapando-o. Ainda não acredita que está viva e que respira.
O que foi aquilo? pergunta ela a Hrothgar, e ele abana a cabeça e fixa os olhos no buraco negro da chaminé.
O Grendel responde-lhe. Aquilo era o Grendel.

CAPÍTULO II

ESTRANHOS ESPÍRITOS


Pegajoso do sangue seco dos guerreiros massacrados e encardido da fuligem da chaminé de Heorot, Grendel regressa à sua gruta para lá da floresta. Postado à entrada, pressente o olho da Lua a vigiá-lo, vem a sentir o seu olhar a arrepiar-lhe a pele desde que abandonou o salão do hidromel. Foi a vigiá-lo durante todo o caminho para casa, seguindo o seu rasto lento no regresso através das charnecas, por entre a floresta adormecida e na travessia dos pântanos. Relanceia por cima do ombro e olha para o céu. Máni já deu início à sua descida na linha do horizonte, a ocidente, e não tardará a desaparecer por detrás das copas das árvores ancestrais.
Julgavas que eu não era capaz de me desvencilhar-me sozinho? pergunta Grendel à Lua. Julgavas que eu não teria coragem?
A Lua, porém, não lhe responde. Nem Grendel estava à espera disso. Tanto quanto sabe, o filho de Mundilfaeri é mudo e nunca proferiu uma só palavra em toda a sua longa existência, pairando no céu noturno. Grendel suspira e baixa os olhos para os dois cadáveres que trouxe consigo desde Heorot, depois afasta-se do luar para se refugiar na escuridão reconfortante da caverna.
Não tem memória dum tempo em que esta caverna não fosse o seu lar. Por vezes pensa que deve ter nascido aqui. Não muito longe da entrada, há uma lagoa de águas límpidas e tranqüilas, emoldurada por estalactites pendentes e gotejantes e estalagmites aguçadas que se projetam do chão da gruta. Sempre lhe fizeram lembrar dentes, e, por conseguinte, a lagoa é a garganta da caverna talvez mesmo a garganta de toda a terra e, assim, talvez ele seja apenas uma coisa qualquer que a terra cuspiu, um bocado indigesto duma refeição que lhe caiu mal, quem sabe.
Grendel atira os guerreiros mortos para um grande amontoado de ossos que se acha a um canto da caverna, próximo da beira da lagoa. Aqui, os ossos empalidecidos dos homens jazem misturados com os resquícios de outros animais os crânios guarnecidos de hastes de possantes veados adultos, os esqueletos em decomposição de ursos e focas, de lobos e javalis. Enfim, seja lá o que for que consegue apanhar e matar, e, em toda a sua vida, Grendel nunca se deparou com nada que não conseguisse matar. Aliviado do seu fardo, vira-se para a lagoa e contempla o seu próprio reflexo nas águas tranqüilas. No escuro, os seus olhos cintilam tenuemente, as íris salpicadas de dourado.
Grendel? chama-o a mãe. Hwaet oa him weas?
Surpreendido e assustado por ouvir a sua voz, a música melódica e cristalina das suas palavras, ele vira-se de imediato, revoluteando precipitadamente em volta de si próprio e por pouco não perdendo o equilíbrio.
O que é que tu andaste a fazer, Grendel?
Mãe? chama ele por sua vez, perscrutando a escuridão da caverna à procura dalgum indício materno para além da voz. Onde é que está? Deita uma olhadela ao teto, a imaginar se a voz da mãe não teria vindo algures lá do alto.
Os homens? Grendel... Julguei que tínhamos um acordo no que aos homens diz respeito.
Sim, ela devia estar no teto, a vigiá-lo dalgum recanto secreto e obscuro mesmo por cima dele. Mas é então que ouve um sonoro chape vindo da lagoa, e Grendel dá por ele encharcado de água gelada.
Os peixes, Grendel. Os peixes, os lobos e os ursos. De quando em vez, uma ovelha ou outra. Os homens, porém, não.
Ele torna a voltar-se lentamente para a lagoa, e lá está a mãe, à sua espera.
A mãe gosta dos homens diz-lhe Grendel. Olhe... Pega num dos nobres mortos, o menos mutilado dos dois, e oferece-lho.
Não recusa ela em tom peremptório. Esses seres frágeis, não, meu querido. Não te esqueças duma coisa: eles hão de fazer-nos mal. Já mataram tantos dos nossos... da nossa espécie... os gigantes, os dragões. Têm-nos perseguido quase até à extinção. E também te hão de perseguir a ti se não perderes o hábito de os matares.
Mas eles estavam a fazer uma barulheira tremenda. Estavam numa pândega que nem imagina... e estavam a magoar-me. A magoar a minha cabeça. Eu nem era capaz de pensar de tanto barulho e tantas dores. E Grendel torna a estender-lhe o nobre morto. Tome, mãe, este aqui é amoroso. Eu já lhe descasquei todas as partes de metal.
Pousa-o, Grendel.
E ele assim faz, deixando-o cair na lagoa, onde mergulha momentaneamente para logo regressar à superfície. O sangue começa de imediato a manchar a água límpida. Grendel está agora a chorar, e sente vontade de fugir, de tornar a fugir para a noite onde apenas a Lua o pode ver.
O Hrothgar estava lá? interroga-o a mãe, com um laivo de irritação na voz.
Eu não lhe toquei.
Mas viste-o? Ele viu-te?
Sim, mas eu não lhe fiz mal.
A mãe fecha os seus olhos grandes e cintilantes por um instante e em seguida fita-o durante mais alguns segundos, e Grendel percebe que ela procura algum indício de que o filho lhe possa estar a mentir. Quando não encontra nenhum, desliza graciosamente para fora da lagoa, movimentando-se com a mesma facilidade da água a fluir por cima das pedras, ou do sangue a jorrar da lâmina dum machado. Estende um braço para tocar em Grendel, o seu corpo escamoso e forte, úmido e ainda mais reconfortante que o refúgio escuro da sua gruta. A mãe limpa-lhe um pouco do sangue e da fuligem que traz agarrados às faces e à testa.
Eu não lhe toquei, mãe insiste Grendel uma terceira vez.
Eu sei sossega-o ela. És um lindo menino.
Eu já não agüentava mais.
Meu pobre filhinho, tão sensível arrulha ela. Promete-me que não tornas a ir lá. Grendel, todavia, limita-se a fechar os olhos e a tentar afastar dos pensamentos as árvores desmembradas e os corpos desfeitos, a evitar que a sua mente se alongue na algazarra dos homens, no ódio que sente, na linda mulher de cabelos dourados que ele teria matado, uma última vítima, não o tivesse Hrothgar impedido.



























CAPÍTULO III

ATAQUES NOITE DENTRO


Os ataques de Grendel não terminaram depois do primeiro assalto a Heorot. Alguns rancores são demasiado antigos e profundos para se darem por satisfeitos com uma única noite de terror e massacre. Noite após noite, ele regressava, o ódio e a aversão que tinha aos dinamarqueses a impelirem-no repetidamente para fora da sua caverna, decidido a pôr fim duma vez para sempre ao burburinho no salão de Hrothgar. Dali em diante, não haveria mais noites ensurdecedoras, dolorosas. Deixaria de haver folguedo. E, à medida que a invernia ia apertando cada vez mais o cerco em volta da terra, até a neve formar uma crosta de gelo e o sol não passar duma vaga recordação de verões que talvez nunca mais voltassem, a dádiva de Hrothgar ao seu povo transformou-se num lugar amaldiçoado e temido. Grendel, porém, não restringiu os seus assaltos apenas ao salão, atacando indiferentemente novos e velhos, homens, mulheres e crianças, fracos e fortes, desde que a oportunidade lhe surgisse. Dominava Heorot, indo e vindo como muito bem entendia e fazendo do salão do hidromel o troféu mais prezado da sua guerra solitária, mas também errava pelas charnecas e pelos bosques ancestrais, pelas quintas e habitações, atacando quem quer que se cruzasse no seu caminho.
E a notícia correu, nas canções dos escaldos, nos relatos sussurrados dos viandantes e mercadores, do destino nefando que se abatera sobre o reino de Hrothgar.
Numa manhã gélida, em que o gelo mais se parece com aço e o Sol ainda não se dignou a dar um ar da sua graça, o rei encontra-se deitado com a sua rainha num colchão macio de palha, envolvido numa coberta de lã e peles de veado. Hrothgar abre os olhos, sem saber ao certo o que foi que o acordou, mas logo vê Unferth postado ao lado da sua cama.
Senhor meu? chama-o Unferth num murmúrio, para não perturbar a rainha Wealthow. Senhor meu, voltou a acontecer.
E Hrothgar tem vontade de fechar os olhos e fazer um esforço por tornar a mergulhar no sono, voltar a sonhar com dias de sol ameno e noites sem monstros, todavia, quando os abrisse novamente, Unferth continuaria lá. Apressa-se a vestir-se, fazendo o menor ruído possível, procurando não acordar a mulher, em seguida acompanha Unferth até Heorot. Não tarda, acha-se ao frio, com Unferth, Wulfgar e mais alguns nobres, à porta do salão do hidromel, à porta nova do salão, reforçada com grandes cintas de ferro e, sem exagero, duas vezes mais grossa que a que Grendel estilhaçou.
Quantos, desta feita? pergunta Hrothgar, o seu bafo a adensar-se como fumo.
Unferth respira fundo e engole em seco antes de lhe responder. Para ser franco, não sei. Os corpos não ficaram intactos. Cinco. Dez, talvez. Era o copo-d’água da filha do Nykvest.
O Grendel agora vem com cada vez mais freqüência. Hrothgar solta um suspiro e cofia a barba. Por que é que o demônio não se limita a fazer do meu salão a sua casa para se poupar ao trabalho de ter de calcorrear a charneca para cá e para lá todas as noites?
Hrothgar baixa os olhos e repara numa mancha vermelho-rosada a escoar por debaixo da porta.
A porta nova não tem um arranhão sequer constata ele, batendo furiosamente na madeira dura com a palma da mão aberta.
Pois não assente Unferth. É óbvio que o demônio do Grendel chegou e partiu através daquela skorsten. E aponta para a abertura da chaminé no telhado de Heorot Hall. Hrothgar dá imediatamente pela presença do sangue, espalhado pelo telhado de colmo, depois na neve por baixo do beirai, salpicando as pegadas descomunais do monstro. O rasto prolonga-se para longe do recinto e desvanece-se na neblina.
O rei respira fundo e exala mais vapor, depois esfrega os seus olhos remelentos.
Quando eu era novo, matei um dragão em Northern Moors afirma ele, e Unferth pressente-lhe um laivo de tristeza ou arrependimento na voz. Mas agora estou velho, Unferth. Já não tenho idade para andar à caça de demônios. Precisamos dum herói, um herói jovem e astucioso, que seja capaz de nos livrar da maldição que se abateu sobre o nosso salão.
Oxalá tivésseis um filho, meu senhor diz Wulfgar, recuando um passo da porta e do sangue que alastra pela soleira. As suas botas trituram pesadamente o solo gelado.

* * *

«Está um dia da cor das sepulturas», pensa o rei Hrothgar, contemplando desoladamente o mar irado e imaginando os trajes cinzentos de Hel, e o fulgor baço dos seus olhos cinzentos que aguarda todos os homens que não perecem no campo de batalha nem no desempenho de qualquer outro feito heróico, todos os homens que se permitem enfraquecer e definhar em torres de pedra. Pois mesmo os homens corajosos que matam dragões na juventude podem morrer de velhice e acabar por se verem convidados de Éljudnir, o salão úmido da chuva de Hel. Atrás dele, Unferth está sentado a uma mesa, concentrado na tarefa de contar moedas de ouro e outras peças do tesouro. E Hrothgar pergunta-se que recanto sombrio de Niflheim terá sido preparado para os receber a ambos. Já começou a ver as portas de Hel em sonhos, pesadelos em que persegue e enfrenta o monstro Grendel uma vez e outra, e outra ainda, mas em que o demônio se esquiva sempre a dar-me luta, recusando-lhe até o obséquio duma morte heróica.
Estes pensamentos melancólicos são interrompidos por passos e pelo som da voz de Wulfgar, e o rei afasta-se da janela.
Estás a ouvir? pergunta ele a Wiglaf.
Eu cá não ouço nada, senhor meu, para além do mar, do vento e das gaivotas.
A canção, Wiglaf diz-lhe Beowulf. E a mãe do Grendel, a mulher da lagoa... a mãe do meu filho... a minha... Nesse momento, porém, a sua voz desvanece-se, a sua atenção abstraída pelas dores, e ele sem saber que palavra proferir em seguida, se amante ou mãe, se inimiga ou sina.
Torna a abrir os olhos, pois agora a música está tão alta que não precisa de se esforçar tanto para a distinguir do barulho do mar. Wiglaf olha-o fixamente, e Beowulf nunca o viu com um ar tão assustado.
Não, senhor meu. Não digais coisas dessas. Vós matastes a mãe do Grendel. No tempo em que ambos éramos ainda uns jovens. Está na saga...
Então a saga não passa duma mentira. Beowulf corta-lhe a palavra elevando a voz, zangado e quase aos gritos, e Wiglaf sente qualquer coisa a soltar-se dentro do peito. Uma mentira reitera ele. Wiglaf, tu sabes que é mentira. Sempre soubeste. Wiglaf não profere uma só palavra, e Beowulf torna a fechar os olhos, desejando apenas ouvir a canção que flutua até ele vinda do mar.
E já é tarde demais para mentiras sussurra ele. Tarde demais...
Uma onda inunda a margem, encharcando Wiglaf, e quando este torna a olhar para o rosto empalidecido de Beowulf, apercebe-se de que se encontra sozinho na praia. O rei Beowulf morreu.





















EPÍLOGO

A MORTE DE Beowulf


No centro do mundo, encontra-se o freixo Yggdrasil, a maior e a melhor de todas as árvores, e, por baixo das raízes de Yggdrasil, habitam três donzelas as Nornas que trabalham sem cessar, atarefadas diante dos seus teares, fiando e dando forma às vidas dos homens e das mulheres, tecendo o que podem a partir do caos e das infindas possibilidades. Até mesmo os deuses de Ásgard não passam de fios nas mãos das Nornas, e até mesmo eles, à semelhança dos homens mortais e dos gigantes, não têm qualquer acesso à urdidura das suas vidas nem conhecem a sentença daqueles dedos ágeis e incansáveis. Apenas estas três donzelas, que laboram sob as raízes do Freixo do Mundo, conhecem o comprimento de cada fio. E o mesmo se passou com Beowulf, que sempre ambicionou a glória e a morte audaz que só deve ser ambicionada por aqueles que desejam ser recebidos no salão de Odin e combater ao lado dos deuses na derradeira batalha, quando Ragnarok chegar e os filhos de Loki Caminhante dos Céus, Aquele Que Tudo Muda, forem uma vez mais soltos no cosmos. No instante do seu nascimento, as Nornas já tinham tecido o destino de Beowulf e, em todas as lutas que travou até ao dia da sua morte, sempre se limitou a seguir o curso desse fio.
São estes os pensamentos do novo Senhor dos Dinamarqueses neste dia de Inverno, o dia do funeral de Beowulf. O rei Wiglaf, filho de Weohstan e duma peixeira geata, acha-se sozinho, afastado de todos os outros que vieram despedir-se do velho rei. Hoje ele usa a coroa que ainda recentemente era pertença de Beowulf, e do rei Hrothgar antes dele, retrocedendo pela linhagem de Hrothgar até Scyld Sheafson. Do ponto onde se encontra em meio aos rochedos à beira-mar,
Wiglaf contempla nas ondas de crista espumosa, o Sol que se põe e no barco fúnebre. Trata-se do mesmo barco com proa de dragão com que ele, Beowulf e restantes guerreiros geatas, trinta anos atrás, cavalgaram as águas tempestuosas de Jótlandshaf para alcançar a costa desta terra amaldiçoada por demônios, e que agora transportará Beowulf na sua derradeira viagem desde as muralhas de Midgard até à ponte de Bilröst.
Veio tanta gente os sobreviventes do ataque do dragão a Heorot, bem como forasteiros dos quatro cantos dos reino dos Ring-Danes. Reuniram-se na costa agreste, em silêncio ou murmurando uns com os outros. Um jovem bardo encontra-se postado num penhasco virado para o mar, a curta distância de Wiglaf, entoando com uma voz alta e clara que se propaga pela praia tingida pelo crepúsculo.
Pela rota das baleias ele veio E da nossa terra fez o seu lar...
Dez guerreiros robustos ocuparam as respectivas posições, cinco de cada lado do barco fúnebre. Preparam-se para navegar a todo o pano, e o vento do anoitecer açoita e agita os cabos dos mastros. Catorze dos melhores escudos de batalha jamais construídos ladeiam o cintado quer a estibordo, quer a bombordo, e a embarcação fúnebre foi recheada de tesouros, de ouro, prata e bronze, e de espadas, machados e arcos, de elmos e reluzentes cotas de malha. Todos estes objetos preciosos serão sepultados junto de Beowulf a seu pedido, para que ele possa cavalgar pelas vastas planícies de Idavoll devidamente equipado. O seu esquife de carvalho destaca-se no centro do tesouro, e Beowulf jaz ali, envergando as suas melhores peles e a sua armadura.
Os guerreiros empurram laboriosamente e a grande custo, mas por fim lá conseguem fazer deslizar o navio pela areia até à rebentação gélida. De imediato, o barco é apanhado por uma corrente que o vai afastando da margem através dum magnífico arco marítimo, uma ancestral abóbada de granito esculpida pelo vento, pela chuva e pelo próprio mar. No alto da abóbada sobranceira ao mar, encontra-se um destacamento de soldados que vigiam a imensa fogueira de cedro aí construída.
Wiglaf inspira profundamente o ar frio e salgado, fazendo as suas despedidas em silêncio, enquanto observa o barco a ser conduzido pelo vento e pela corrente na direção da abóbada de pedra. A voz do bardo eleva-se quando a canção está prestes a chegar ao fim.

Tanto sangue onde tantos pereceram
Trazido até à margem por uma maré carmesim.
Tal como agora, também então não havia misericórdia.
Cães de guerra roíam os ossos dos homens.
Bravos e fortes caíram na luta
Alimentando o apetite voraz da Morte.
Apenas um com um coração de rei
Os libertou. E a ele que louvamos.

Wiglaf avista o franzino padre cristão com a sua indumentária vermelha, pairando em volta da rainha e segurando o estandarte de Jesus Cristo, no entanto, o irlandês não desempenha qualquer papel formal nesta cerimônia. Estes são os antigos costumes, que vão desaparecendo gradualmente da terra à medida que uma nova e estranha religião se apodera dela, mas eram os costumes de Beowulf, e continuam também a ser os costumes do rei Wiglaf, e, por conseguinte, serão honrados e observados neste dia.
A rainha Wealthow acha-se de mão dada com Ursula, e Wiglaf tem esperança de que, juntas, possam encontrar consolo para a dor da perda e o terror. Wealthow continuará a ser Senhora de Heorot, a rainha scylding, embora Wiglaf esteja decidido a respeitar a sua vontade e a não lhe pedir que o despose.
O navio fúnebre navega sob a abóbada e, quando sai pela extremidade oposta e se dirige ao mar alto, os soldados encarregues da pira pegam em varas compridas e empurram-na para fora dos penhascos. Uma brilhante cascata de cinzas incandescentes e tições flamejantes projeta-se das rochas e chove sobre os mastros e o convés do navio com proa de dragão. Não tarda, toda a embarcação está a arder.
A canção do bardo chega ao fim, e Wiglaf deixa-se ficar momentaneamente a ouvir o bramido voraz das chamas, das ondas e do vento, o murmúrio sumido e triste da multidão. A biga do Sol já desceu sobre o horizonte, e Wiglaf tem a impressão de ver um enorme olho carmesim que contempla o barco em chamas e os enlutados reunidos na margem. O olho resplandecente forma uma moldura de nítido contraste com as velas a arder do navio fúnebre. E, por fim, o rei Wiglaf toma a palavra, elevando a voz para se fazer ouvir.
Ele era o mais audaz de todos nós. O príncipe de todos os guerreiros. O seu nome viverá para sempre. Ele... Agora, porém, o nó que lhe aperta a garganta torna-se dolorosamente insuportável, e Wiglaf vira a cabeça para que ninguém veja as lágrimas que lhe escorrem pela face.
A sua canção diz a rainha será cantada para sempre. Enquanto o mundo for mundo, os relatos dos seus feitos audazes haverão de ser contados.
E, em seguida, resta apenas o vento e a espuma das ondas, e o navio fúnebre de Beowulf foi arrastado para o mar alto. Pouco a pouco, os enlutados começam a retirar-se, enfileirando-se pela estrada que serpenteia dos penhascos escarpados até ao castelo. Wiglaf observa Wealthow e Ursula a afastar-se, ele, porém, não as acompanha, decidido a ficar de vigília enquanto o navio flutuar, enquanto arder. A sua memória recua até a um dia trinta anos atrás, ele e Beowulf no convés oscilante, rodeados por um mar enfurecido e tempestuoso.
«O mar é a minha mãe!», declarara um Beowulf todo ufano. «Ela cuspiu-me vai para uns anos e nunca mais me há de querer de volta ao seu ventre tenebroso!»
E então que Wiglaf ouve algo trazido pelo vento, um lamento sem palavras, e dirige um olhar atento para o mar, procurando a origem do barulho. E enquanto contempla as águas, agora ensangüentadas pelo ocaso e pelas chamas do navio fúnebre, o lamento começa a tomar outra forma, transformando-se numa linda canção, uma canção mais melodiosa que qualquer outra que algum dia lhe tenha chegado aos ouvidos ou que ele tenha imaginado que pudesse existir.
«A canção, Wiglaf. A mãe do Grendel, a mulher da lagoa.»
E em seguida vê-a, a silhueta duma mulher montada na proa do navio do dragão envolto em chamas. O sol poente reflete-se na pele, e depois ela desliza silenciosamente para o mar. Livre da sua passageira, o barco aderna para bombordo e de imediato se começa a afundar. Wiglaf abandona os rochedos e apressa-se a descer até à areia, onde repara em qualquer coisa metálica a cintilar enquanto flutua ao sabor das ondas. A princípio julga tratar-se simplesmente de qualquer objeto que caiu do barco do rei defunto, que talvez se tenha soltado devido ao impacto da cascata de fogo. Todavia, quando se baixa para o apanhar, depara-se com a taça de ouro em forma de chifre, duas vezes perdida e uma vez mais recuperada. Pega nela, contrariando o conselho dum recanto mais prudente da sua mente de que talvez ficasse melhor se a deixasse continuar onde está, desse meia-volta e seguisse os restantes pelo penhasco acima até ao castelo. Wiglaf deixa-se ficar com o mar a banhar-lhe nos pés e o chifre na mão, apercebendo-se de que nunca até agora apreciou devidamente a elegância com que foi construído. Torna a dirigir o olhar para o mar, que escurece rapidamente à medida que o Sol desaparece no horizonte.
Ela começa a elevar-se das águas, a mãe de pele dourada do demônio Grendel, a mãe do dragão que foi o único filho de Beowulf. Interrompe o seu cântico e sorri, apontando para Wiglaf com um longo dedo. Wiglaf dá um passo hesitante na sua direção, a água a marulhar-lhe em volta dos seus tornozelos, causando-lhe a impressão de o arrastar para a frente. Já só lhe resta uma percepção vaga do navio fúnebre, à medida que a sua proa esculpida se empina no ar e ali paira uns instantes, antes de tornar a deslizar para baixo e ser tragada pelo oceano. A água silva e fumega enquanto as profundezas acolhem os restos mortais de Beowulf, filho de Ecgtheow, nos jardins de AEgir.
Um homem como tu diz ela podia protagonizar as histórias mais ilustres jamais contadas. E Wiglaf, filho de Weohstan, contempla intensamente os olhos cor de mel desta mulher vinda do mar. Na sua mente, ressoa a sedutora tentação das suas promessas, mas isso não o cega para o elevado preço a pagar, o preço que já tantos homens antes dele pagaram.
Um homem como tu insiste ela, estendendo uma mão para o geata.
Poderia percorrer qualquer caminho que quisesse replica Wiglaf, e o mar gélido detém-se a seus pés. Eu bem sei quem tu és, mulher demoníaca, e também sei que falas de glória, de riqueza e fama e, não tivesse eu visto o que já vi, esse seria o melhor presente que o pobre filho dum peixeiro poderia receber.
Tal e qual sorri a mulher da lagoa, pois os seus muitos anos concederam-lhe a perícia de saber esperar, tendo à sua frente mais tempo que a mente de qualquer mortal possa abarcar.
E as Nornas Urdr, Verdandi e Skuld , as três sinas que tecem laboriosamente sob as raízes de Yggdrasil, observam o progresso doutro fio bem esticado nos seus teares. Pois cada fio é um assombro para elas, e assim vão tecendo e esperando com a paciência de todas as criaturas imortais.




















UM GLOSSÁRIO DE TERMOS ESCANDINAVOS, ISLANDESES, ANGLO-SAXÕES E EM INGLÊS ANTIGO QUE SURGEM
NO ROMANCE


AEgir na mitologia escandinava, a personificação do mar, marido da deusa Rán, pai de nove filhas (as ondas, as vagas); sinônimo de mar na poesia escandinava. AEgir é por vezes apresentado como um gigante, embora isto seja pouco verosímil.
aeglaeca usado em referência à mãe de Grendel (Grendles modor); anglo-saxão, «terrível adversário», «lutador feroz».
AEsir os principais deuses do panteão escandinavo, incluindo Odin, Baldr, Bragi, Loki, Vé, Heimdall, etc; exclui os deuses referidos como Vanir, contra quem os AEsir combatem.
aglaec-wif anglo-saxão, usado para referir a mãe de Grendel (Grendles modor); a tradução deste termo encontra-se rodeada duma certa controvérsia. O Dictionary of Old English tradu-lo como «mulher guerreira, mulher temível». Autores de épocas anteriores traduziram-no como «mulher do monstro» e «mulher monstruosa», no entanto, essas mesmas traduções de Beowulf vertem aglaeca e aeglaeca para «herói» ou «guerreiro» quando se referem ao próprio Beowulf.
Árvak escandinavo, «madrugador», um dos cavalos que puxam a biga da deusa Sól.
Alsvin escandinavo, «o mais veloz», um dos dois cavalos que puxam a biga do Sol; também Alsvid.
Ásgard o lar dos AEsir, literalmente «recinto dos AEsir».
Ásynja feminino de AEsir.
Audhumla no mito escandinavo da criação, a primeira vaca, que lambeu o primeiro deus, Búri, libertando-o assim do gelo salgado.
Aurgelmir «vociferador de cascalho», pai da raça dos Gigantes de Gelo; também conhecido por Ymir.
Bestla uma das Gigantes do Gelo, mãe dos deuses Odin, Vé e Vili, mulher de Borr (Burr), filha de Bolthorn.
Bilröst, ponte de também conhecida por Ponte de Bifrost, a Ponte do Arco-íris, etc; uma grande ponte que estabelece a ligação entre os AEsir e Midgard, o reino dos homens, que será destruído quando de Ragnarok.
Bragi deus da poesia escandinava, filho de Odin.
Bronding, clã uma tribo germânica, provavelmente instalada na ilha sueca de Brännö, a oeste da Västergötland, no Kattegatt (uma enseada do mar Báltico); Brecca, o amigo de infância de Beowulf, pertencia a este clã.
Búri o deus primordial do panteão nórdico, pai de Borr, avô de Odin.
Crepúsculo do Deuses Ragnarok.
Dökkálfar na mitologia escandinava, os «gnomos negros» subterrâneos; também conhecidos por Svartálfar («gnomos pretos»). Possivelmente sinônimos de anões (dvergar).
einherjar na mitologia escandinava, os espíritos daqueles que sofreram uma morte audaz em combate e que, como tal, residem em Valhalla, junto de Odin, à espera de Ragnarok; também einheriar, singular einheri.
Éljudnir o salão de Hel, no inferno escandinavo.
Fenrir, Fenrisulfr na mitologia escandinava, o grande lobo, filho de Loki e da gigante Angrboda. Fenrir foi acorrentado pelos AEsir, um dia, porém, haverá de crescer tanto que conseguirá rebentar as correntes e devorar Odin durante Ragnarok, antes de morrer às mãos do filho de Odin, Vidar.
Frermánudr mês do gelo, décimo segundo mês do antigo calendário escandinavo, indo sensivelmente de meados de Novembro a meados de Dezembro, mês do Yule; também conhecido por Ylir.
Fyrweorm literalmente «verme de fogo»; dragão.
Gandvik provavelmente antiga designação do mar Báltico; há também traduções em que aparece também como Grandvik.
Geata a tribo de Beowulf, a um povo que viveu no que território que corresponde atualmente à Suécia, na Götaland («Terra dos Geatas»); os godos.
Ginnunga, buraco de um vazio ou caos primordial que existiu antes de o mundo ser ordenado; também conhecido por Ginnungagap.
Gjöll na mitologia escandinava, um dos onze rios (os Élivágar) cuja nascente é o Hvergelmir (a fonte de todo o frio), em Niflheim. Os
Élivágar («ondas de gelo») flutuam através do buraco de Ginnunga; Gjöll é também o nome usado para a pedra à qual Fenrir se acha acorrentado.
Gladsheim o grande salão de Odin, em Valhalla, localizado na planície de Idavoll no interior de Ásgard, onde se sentam os AEsir e os valorosos einherjar.
Gleipnir a força que prende o lobo Fenrir, da qual se diz que é fina como uma fita de seda e mais resistente que uma corrente de aço; forjada pelos anões de Svartálfheim a partir de seis ingredientes: o barulho da passada dum gato; as raízes duma montanha; os tendões dum urso; a saliva dum pássaro; a barba duma mulher; e o hálito dum peixe.
Gram a espada empunhada por Siegfried (também Sigurd) para matar o dragão Fafnir.
Gullinkambi escandinavo, literalmente «crista dourada», é o nome do galo que mora em Gladsheim, em Valhalla, e cujo cantar todas as alvoradas acorda os einherjar, e que haverá igualmente de assinalar o início de Ragnarok.
Heathoreams uma tribo germânica que habitou em Oslo, na Noruega, nos séculos V e VI.
Heimdall filho de nove mais diferentes, Heimdall é o guardião dos deuses, que, em caso de o perigo rondar Ásgard, está incumbido de tocar o larhorn («chifre de toque»); também Heimdallr.
Hertha outro dos nomes por que a deusa Nerthus é conhecida (ver Nerthus).
Hildeburh filha do rei dinamarquês Hoc e esposa do rei frísio Finn.
Hraesvelg, Hraesvelg Corpse-swallowe uma águia gigante cujas asas ao bater criam o vento do mundo.
Hymir um gigante que possuía um caldeirão descomunal que lhe foi roubado por Thor para fermentar hidromel para os AEsir.
Idavoll na mitologia escandinava, a planície onde se situa Ásgard.
Jörmungand, Jörmungand Loki-son, Jörmungandr um dos filhos monstruosos que Loki teve da gigante Angrboda; Serpente do Mundo, ou Serpente de Midgard, esta grande cobra foi aprisionada nos mares por Odin, tendo entretanto crescido tanto que circunda o mundo inteiro.
Jótlandshaf também conhecida por Skagerrak; um estreito entre a Noruega, a Suécia e a Dinamarca que estabelece a ligação entre o mar do Norte e o mar Báltico.
Jötnar os gigantes (singular jötunn).
Jotunheimr a casa dos gigantes, também conhecida por Jotunheim, que habitam por detrás da grande muralha de Midgard.
Loki, Loki Caminhante dos Céus filho dos gigantes Fárbauti e Laufey e irmão adotivo de Odin, Loki foi responsável pelo assassinato do deus Baldr. Como castigo, os AEsir acorrentaram-no a três lajes de pedra e colocaram-lhe por cima uma serpente, cujo veneno cauterizante lhe pinga para os olhos. Quando ele se contorce, a terra estremece. Loki será libertado quando de Ragnarok, onde ele enfrentará e derrotará Heimdall, mas acabará por morrer dos ferimentos sofridos.
Lyngvi a ilha onde os AEsir prenderam o lobo Fenrir. Lyngvi fica situada num lago conhecido por Ámsvartnir («vermelho-negro»).
Máni filho dos gigantes Mundilfaeri e Glaur, Máni é o deus escandinavo da lua. Todas as noites ele leva a lua através dos céus, perseguida pelo lobo Hati. Quando Ragnarok chegar, Hati irá finalmente apanhar Máni e tentar devorar a lua.
Menires pedras eretas, megalitos.
Merwif a mãe de Grendel; em Inglês Antigo, literalmente, «mulher das águas» ou «mulher da lagoa».
Midgard na mitologia escandinava, o reino que os AEsir destinaram aos homens, separado do resto do cosmos por uma grande muralha construída a partir das sobrancelhas do gigante Ymir. Midgard resulta duma transliteração do Escandinavo Antigo Midgardr («recinto do meio»). O Inglês Medieval transforma Midgardr em Middlelaerd (ou Middel-erde), ou seja, «meio da terra».
Midgard, serpente do (ver Jörmungand).
Montanhas Tenebrosas Nidafjöll, as montanhas do inferno escandinavo, donde é oriundo o grande dragão Nidhogg, O Que Mordisca as Raízes.
Mörsugur no antigo calendário escandinavo, o mês do solstício de Inverno, que se segue a Frermánudr.
Mundilfaeri na mitologia escandinava, um gigante, pai da deusa do sol Sól e do deus da lua Máni, que teve da gigante Glaur; também Mundulfäri.
Muspéll um gigante associado a Ragnarok, que habitava no reino primordial do fogo que fazia fronteira com o buraco de Ginnunga. Os filhos de Múspell haverão de destruir Bilröst, assinalando a batalha final travada entre os AEsir e os gigantes.
Nerthus uma deusa da fertilidade germânica associada à água; também conhecida por Nerpuz, Hertha. Alguns estudiosos do Beowulf estão convictos de que «Grendles modor» poderá ter sido criada como uma encarnação desta deusa.
Nidafjöll (ver Montanhas Tenebrosas).
Nidhogg, Nidhogg, 0 Que Mordisca as Raízes o grande dragão que habita sob Yggdrasil, o «Freixo do Mundo», e que nunca se farta de mordiscar as raízes da enorme árvore. Também Nídhöggr («atacante da malícia»).
Niflheim a «terra das brumas» escandinava, situada a norte do buraco de Ginnunga, terra dos Gigantes de Fogo e da filha de Loki, Hel.
Njörd, Njördr na mitologia escandinava, um dos Vanir, deus do vento e das costas marítimas, dos pescadores e da navegação. Njörd tem o poder de acalmar tanto o mar como o fogo. Casado com Skadi, pai de Yngvi-Freyr e Freyja.
Nornas as mulher que fiam o destino do cosmos sob os ramos de Yggdrasil. As mais importantes são Urdr («destino»), Verdandi («o que há de vir») e Skuld («possibilidade»), que não se limitam a decidir o destino, mas também tratam das raízes do Freixo do Mundo para que estas não apodreçam. A chegada destas três poderosas gigantes a Jötunheimr, anunciou o fim da época dourada dos AEsir.
Odin, Odin Pai de Todos, Odin Juiz de Hel e Odin Langbard o deus axial do panteão escandinavo. Juntamente com os seus irmãos, Vili e Vé, Odin matou o gigante primordial Ymir e utilizou o cadáver do gigante para ordenar o mundo. Depois de passar nove dias pendurado no Freixo do Mundo, atravessado pela sua própria lança, Odin conquistou a sabedoria necessária para governar os nove mundos. A troco da perda da vista esquerda, bebeu da Fonte do Conhecimento e obteve acesso ao passado, ao presente e ao futuro. Odin haverá de perecer em Ragnarok, juntamente com os outros
Ragnarok em Escandinavo Antigo, «crepúsculo» ou «destino dos deuses». Ragnarok é a derradeira batalha entre os AEsir e as forças do caos, incluindo Loki e a respectiva prole monstruosa, bem como outros gigantes. Ragnarok destruirá praticamente todo o universo e anunciará o advento duma nova era.
Rán esposa de AEgir e mãe de nove filhas, Rán é a deusa do mar. Conta-se que Rán tinha uma rede com que por vezes apanhava pescadores incautos. Aliás, Rán significa «roubo». Todos os homens que se afogam no mar são levados por Rán.
sahagin «bruxa marinha», uma expressão aplicada à mãe de Grendel.
Sigurd Matador de Dragões uma figura heróica da mitologia nórdica, que ocupa igualmente uma posição de destaque na saga islandesa Völsunga. Filho adotivo do deus Regin, Sigurd mata Fafnir (filho do rei gnomo Hreidmar e irmão de Regin), que assumira a forma dum dragão. Em Escandinavo Antigo, Sigurd é conhecido por Sigurdr e, em Alemão Antigo, por Siegfried.
Skoll o lobo que diariamente persegue a biga da deusa Sól através do céu.
skorsten em sueco, uma chaminé.
Skuld (ver Nornas).
scylding Inglês Antigo (plural, scyldingas), Escandinavo Antigo, skjöldung (plural, skjöldungar), traduz-se por sbielding «proteção com escudo» e refere-se a um membro da família real dinamarquesa, bem com ao seu povo. A etimologia da palavra pode remontar ao rei Scyld/Skjöld.
Sól deusa do sol, filha de Mundilfaeri e de Glaur, esposa de Glen; Sól transporta-se do sol através do céu durante o dia numa biga dourada.
Svartálfheim o reino subterrâneo dos gnomos.
Thor Matador de Gigantes o deus escandinavo da trovoada, filho de Odin e Jörd. Thor empunha o martelo Mjolnir e irá perecer em Ragnarok ao combater a Serpente do Mundo.
Urdarbrunn a fonte onde as três Nornas vão buscar a água com que regam o Freixo do Mundo.
Urdinas as nove filhas do deus marinho AEgir e da deusa Rán; as ondas.
Valgrind os portões de Valhalla.
Valhalla em Escandinavo Antigo, Valhöll, «salão dos mortos na guerra». E o grande salão de Odin em Ásgard, onde aqueles que caíram em combate celebram enquanto esperam por Ragnarok.
Valquírias deusas ao serviço de Odin e que podem ser usadas como sinônimos de Nornas. As Valquírias dão as boas-vindas aos einherjar que chegam a Valhalla, onde também servem como criadas. Odin envia as Valquírias para todas as batalhas, onde lhes cabe decidir quem vence e quem é derrotado.
Vândalos uma antiga tribo germânica. Compostos por dois grupos, os Silingi e os Hasdingi, os Vândalos eram poderosos guerreiros.
Vanir um subgrupo dos AEsir, que inclui os deuses Njörd, Heimdall, Freyja e Frey. Durante algum tempo, os Vanir andaram em guerra com os outros AEsir, até que uma troca de reféns veio pôr fim ao conflito. Os Vanir habitam em Vanaheimr.
Vé irmão de Odin e Vili, filho de Bestla e Bur, juntamente com os irmãos, criou o mundo a partir dos restos mortais do gigante Ymir.
Verdandi a Norna Verdandi (ver Nornas).
Vidar amiudadas vezes apresentado com o «deus silencioso», Vidar é filho de Odin e da gigante Grid. Em Ragnarok, vingará a morte do pai, e será um dos poucos AEsir que sobreviverá à batalha final. Deus da vingança e aquele que define o espaço (tal como Heimdall define as fronteiras do tempo).
Vili irmão de Odin. Juntamente com Odin e Vé, criou Midgard e ordenou o mundo.
warg Escandinavo Antigo, «lobo».
Weormgraef «sepultura do verme», «sepultura do dragão».
Wergeld, wergild pagamento, sob a forma de dinheiro ou vidas humanas, a troco dum homicídio ou de crimes muito graves.
Serpente do Mundo (ver Jörmungand).
Wylfings (também Wulfings) uma tribo importante, talvez o clã dominante dos Geatas do Leste. Wealthow, esposa do rei dinamarquês Hrothgar, pertencia ao clã wylfing, tal como Heatholaf, assassinado pelo pai de Beowulf, Ecgtheow.
Yggdrasil, Freixo do Mundo na mitologia escandinava, a árvore que se encontra no centro do cosmos e que une os nove mundos. Os únicos humanos destinados a sobreviver a Ragnarok Lif e Lifthrasir consegui-lo-ão escondendo-se debaixo dos ramos de Yggdrasil e alimentando-se do orvalho das suas folhas.
Ymir o primeiro gigante, que a primeira vaca, Audhumla, criou lambendo um bloco de geada. Ymir foi morto e desmembrado pelos AEsir, Odin, Vili e Vé (os filhos de Bur), que se serviram dos seus restos mortais para formar o cosmos.
Yule, Yuletide uma celebração pré-cristã do solstício de Inverno, que incluía um banquete e sacrifícios, presente em muitas culturas do Norte da Europa.



Nota da Autora: se algum professor vos recomendou que lessem Beowulf, nem vos passe pela cabeça seguir esta versão romanceada. Aos leitores que gostariam de aumentar os seus conhecimentos relativos à mitologia escandinava, recomendo-lhes vivamente a leitura de Norse Mythology: A Guide to the Gods, Heroes, Rituais and Beliefs (Oxford University Press, 2001), de John Lindow.




AGRADECIMENTOS


Embora, na escrita deste livro, eu tenha seguido essencialmente o curso que me foi apresentado pelo guião de Neil Gaiman e Roger Avary, há um número adicional de fontes a que gostaria de fazer referência. Norse Mythology: A Guide to the Gods, Heroes, Rituais and Beliefs (Oxford University Press, 2001), de John Lindow, é uma obra que se revelou indispensável e que recomendo a todos os que se interessem pelas crenças e costumes da época dos viquingues. Não posso ainda deixar de mencionar uma série de ensaios acadêmicos que me foram muito úteis e que consultei com freqüência durante a elaboração deste livro: «Beowulf: The Monsters and the Critics» (1936), de J. R. R. Tolkien; «The Interlace Structure of Beowulf» (1967), de John Leyerle; «Royal Halls: The Sutton Hoo Ship Burial» (1967), de Ralph Arnold; «The Issue of Feminine Monstrosity: A Reevaluation of Grendel’s Mother» (1992), de Christine Alfano; «The Germanic Earth Godess in Beowulf» (1991), de Frank Battaglia; Beowulf & Grendel: The Truth Behind Englands Oldest Legend (2005), de John Grigsby; «Grendel’s Heroic Mother» (1984), de Kevin S. Kiernan; «Did Beowulf Commit “Feaxfeng” against Grendel’s Mother?» (1976), de E. G. Stanley; e «The Use of the Term “Aeglaeca” in Beowulf at Lines 893 and 2592» (1961), de Doreen M. Gilliam. Enquanto trabalhei neste livro, também consultei com regularidade duas traduções do poema anônimo Beowulf a tradução clássica em prosa da autoria de E. Talbot Donaldson, datada de 1966, e a tradução em verso de Seamus Heaney, de 2000. Quando traduzi eu própria do original anglo-saxão, recorri à ajuda de A Concise Anglo-Saxon Dictionary (University of Toronto Press, 1984), de J. R. Clark-Hall e a Old English: A Historical Linguistic
Companion (Cambridge University Press, 1994), de Roger Lass, entre outras obras.
Gostaria ainda de agradecer às seguintes pessoas e instituições: a Poppy Z. Brite, pela atenção que me deu; a Neil Gaiman, por ter a audácia de confiar em mim; à minha agente literária, Merrilee Heifetz; aos editores de texto deste livro, Will Hinton e Jennifer Brehl, da HarperCollins; a Jennifer Lee e James Shimkus; Sonya Taaffe, pelo latim e pela comiseração; a Byron White; aos funcionários da Robert Woodruff Library (Emory University); a Claire Reilly-Shapiro e a Albert Araneo da Writer’s House (NYC); a David J. Schow, por ter encorajado a minha investigação dos paralelos surpreendentes entre Alien, de Ridley Scott, e Beowulf; e, acima de tudo, a Kathryn A. Pollac. Este livro foi escrito num Macintosh iBook e num iMac.


[1] Na mitologia escandinava, começou por ser um gigante para passar depois a ser um duende travesso. (NT)

[2] O Inferno. (NT)

[3] Designação por que eram conhecidos os Dinamarqueses, Hring-Dena, no original; literalmente, «vestidos com [armadura] anelada». (NT)
[4] Christ Month, ou seja, Mês de Cristo. (NT)

Nenhum comentário:

Postar um comentário